Tira-Teima Mariano

A Consagração Total a Virgem Maria não tira a liberdade

Padre Francisco Amaral*

Publicação original: 28/02/2018

Esta série de artigos tem como meta desfazer uma série de idéias distorcidas a respeito da Santíssima Virgem Maria e da Consagração Total a Ela, a partir do método que São Luis Maria Montfort ensina no maravilhoso “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima” (TVD).

Pela graça de Deus, esta Consagração tem se tornado, em nosso tempo, cada vez mais conhecida e praticada! Mas infelizmente, muitos não compreendem bem a Consagração, e acabam pensando, vivendo ou falando que a Consagração é aquilo que ela não é.

Alguns afirmam que tal Consagração tira a liberdade de quem a faz…o que pensar?

A Consagração NÃO tira a liberdade de quem a faz. Muito pelo contrário: ela é por si mesmo um ato livre, de Amor, e por ser uma entrega espontânea a Deus por meio da Virgem, só tem o seu valor se feito na liberdade.

Nesse sentido, o termo “Santa Escravidão de Amor,” atribuído a Consagração, precisa ser entendido. São Luis explica que existe uma diferença entre servo e escravo (cf. TVD n. 21): um servo recebe pagamento pelo que faz, e nem tudo que é do servo pertence ao seu Senhor. Já o escravo em TUDO é dependente do seu Senhor.

A palavra “escravidão” pode gerar em nós uma sensação de desconforto, porque lembramos os tristes exemplos da nossa história das pessoas que forçosamente foram escravizadas: os negros, os índios, etc. Mas a “Santa Escravidão” aqui que São Luis fala é outra: não é forçosa ou opressora, mas é a “Escravidão por Amor” (cf. TVD, n. 70), isto é, de “quem escolhe Deus e Seu serviço acima de todas as coisas”.

Esta “Santa Escravidão” é Bíblica, e podemos citar três exemplos:

  • A Santíssima Virgem, quando o Anjo lhe revelou o projeto de Deus de tornar-se Sua Mãe, Ela respondeu: “Eis aqui a Escrava do Senhor” (Lc 1, 38) São Luis afirma (cf. TVD .n 72) que na sociedade da época não havia “servos” como conhecemos hoje, mas somente “escravos”. Portanto, a tradução “serva do Senhor” é inexata. A tradução exata é “Escrava do Senhor”, aquilo que a Virgem se fez, por Amor!

  • Diz São Paulo que Cristo “se despojou de si mesmo, tomando a forma de Escravo” (Fl 2, 6-7). Essa Santa Escravidão que, por Amor, Cristo assumiu para fazer a Vontade do Pai, aparece sobretudo na hora do Calvário: “Pai, afasta de Mim este cálice. Faça, porém, a Vossa Vontade, e não a Minha” (Mt 26, 39).

  • O Filho Pródigo, que após gastar a herança do Pai no pecado, retorna ao Pai dizendo: “Pai, pequei contra o Céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado de Teu filho. Trata-me como a um dos teus escravos.” (Lc 15, 21). E o Pai o chama de “Meu filho” (Lc 15, 24), a ponto de deixar o filho mais velho enciumado (Lc 15, 25-30).

Esta é a lógica do Evangelho:

  • a Virgem Maria se declara “Escrava”, e Deus a coroa Rainha do Céu a da Terra (Ap 12,1).

  • Jesus se faz “escravo”, e o Pai o exalta e lhe confere um Nome que está acima de todo Nome (Fl 2,911).

  • O Filho Pródigo se coloca como “escravo”, e o Pai o trata como “filho” (cf. Lc 15, 24).

Fatos que apontam para a lógica do Evangelho: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado” (Lc 14, 11).

Esta Consagração nos torna Escravos de Nosso Senhor Jesus Cristo pelas Mãos de Maria, e por isso, de alguma forma, Escravos de Maria. A Vontade da Mãe é 100% em sintonia com a Vontade do Filho, por isso quem faz a Vontade da Mãe, faz a Vontade do Filho. Quem realiza a vontade da Virgem Maria, realiza a Vontade Deus. Mas não somos filhos de Maria? Com certeza o somos! Um sábio diz: “Um Escravo é um filho que ama tanto a Sua Mãe, que quer fazer a Vontade Dela em tudo…”

“Feliz os fiéis escravos da Rainha do Céu, porque gozarão a verdadeira liberdade!” (Santa Cecília)

*Padre Francisco Amaral é sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá. Publica homilias no seu canal do youtube:

https://www.youtube.com/channel/UCy-rvaDFNamZF9qGjTFWiHw